MalditoVivant
por Fernando Neres
Sobre
Blog pessoal de Fernando Neres, com resenhas de cinema, livros e música, cobertura de tênis e dicas de cafés e gastronomia em São Paulo. Um espaço para compartilhar cultura, experiências e opiniões sobre o que há de interessante na cidade e no mundo.
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Nada transforma uma manhã comum como o aroma de um café bem tirado. Em São Paulo, as cafeterias escondem pequenos rituais — o som do vaporizador, a textura da xícara, o primeiro gole antes de qualquer palavra. A bebida deixa de ser um simples estimulante e se torna pausa, leitura, companhia. Frequentar uma casa nova é descobrir um bairro por outro ângulo, perceber a luz da tarde entrando pelas janelas enquanto o barista prepara um espresso com precisão quase coreográfica. O café, no fundo, é um convite à lentidão num mundo que insiste em correr.
Uma boa refeição conta histórias antes mesmo da primeira garfada. O tomate assado com amêndoas, a entrada que antecipa o tom do prato principal, a sobremesa que fecha a noite com doçura na medida certa — tudo compõe uma narrativa sensorial. A gastronomia paulistana surpreende pela diversidade de influências e pela seriedade com que chefs transformam ingredientes simples em experiências memoráveis. Circular por restaurantes e bares é uma forma de viajar sem sair da cidade, provando combinações que despertam memórias afetivas e criam novas.
O cinema noir permanece como uma das vertentes mais fascinantes da sétima arte. Luz e sombra dividem o quadro enquanto o protagonista atravessa ruas molhadas com uma moral ambígua e um destino incerto. Rever esses filmes é mergulhar em atmosferas densas onde cada diálogo carrega duplo sentido e cada personagem esconde uma ferida. A influência do noir aparece até hoje, em produções que bebem da mesma fonte estética e narrativa para construir tramas onde o certo e o errado dançam colados.
Ler um livro de uma autora francesa como Pénélope Bagieu é lembrar que as ilustrações também contam o que as palavras apenas sugerem. Seus traços transformam situações cotidianas em crônicas visuais cheias de humor e melancolia. A literatura e os quadrinhos, quando se encontram, criam um território híbrido onde problemas reais ganham leveza sem perder profundidade. Folhear essas páginas é redescobrir a potência da narrativa gráfica, capaz de tratar de família, amor e perda com a mesma naturalidade com que se toma um chá numa tarde fria.
A música tem a estranha capacidade de fixar momentos no tempo. Basta uma canção para retornar a um junho antigo, a uma semana específica, a um rosto que já não está por perto. Discos, playlists e vozes funcionam como arquivos emocionais que revisitamos quando precisamos de abrigo. Em tempos de consumo acelerado, dedicar uma hora inteira a um álbum — sem interrupções, sem notificações — tornou-se um ato quase revolucionário de presença.
O tênis é um esporte que se joga tanto na quadra quanto na cabeça. Cada ponto carrega uma batalha silenciosa entre confiança e hesitação, entre o impulso e a estratégia. Assistir a uma partida é acompanhar dois solistas num duelo onde o erro pune e a beleza recompensa. A elegância de um backhand na linha, o silêncio da torcida antes do saque, a explosão contida num winner — tudo isso faz do tênis uma forma de teatro que cativa mesmo quem nunca empunhou uma raquete.
Manter um blog pessoal em meio à efemeridade das redes sociais é cultivar um jardim próprio. Aqui as ideias respiram com mais calma, os parágrafos não precisam competir com algoritmos e as opiniões amadurecem longe da pressa dos feeds. Escrever sobre filmes, livros, cafés e esquinas de São Paulo é uma maneira de organizar o pensamento e, ao mesmo tempo, convidar o outro para uma conversa silenciosa. Cada post é uma nota deixada na mesa de um café — alguém pode ler, sorrir e seguir.
A família aparece nas entrelinhas de quase toda boa história. Seja na figura dos pais que apresentam o primeiro disco, seja na namorada que recomenda um livro, os afetos domésticos moldam o repertório com que enfrentamos o mundo. Datas especiais — aniversários, Dia dos Namorados, manhãs de domingo — ganham sentido justamente por serem compartilhadas. A casa, mais do que endereço, é o lugar onde os cheiros, os sons e as pessoas se misturam numa trama íntima que nenhum roteiro consegue reproduzir.
São Paulo nunca se entrega por inteiro. A cidade exige disponibilidade para caminhar sem pressa, para entrar na cafeteria escondida no subsolo de uma galeria, para descobrir uma feira de livros numa praça que o mapa ignora. Cada bairro tem seu ritmo e seus códigos, e conhecê-los é um trabalho de paciência e curiosidade. A metrópole recompensa quem se dispõe a olhar além do óbvio, revelando camadas de cultura, gastronomia e encontros que transformam a rotina numa sequência de pequenas descobertas.